sábado, 19 de setembro de 2009

Sabe aqueles dias em que tudo dá certo...

Todo dia ele costumava pegar o mesmo ônibus no mesmo horário. Já estava automatizado, nem olhava o nome ou a numeração, pegava pela cor. Era o único ônibus daquela empresa e daquela cor que passava por ali. Dessa vez não foi diferente. O “ônibus verde” chegou e ele subiu. Sentou-se na última cadeira do fundo, encostou-se na janela, diminuiu um pouco o volume do mp3 e dormiu. O seu ponto era perto do final de linha, não teria problema tirar um cochilo.

Algum tempo depois, acorda, olha pela janela, olha para o corredor que estava cheio. Tenta por a cabeça fora da janela para olhar a linha, não consegue. Mas pela paisagem do lado de fora... confirmado. Pegara o ônibus errado.


– MALDIÇÃO – gritou desesperado sem saber onde estava.


Agora mais pessoas sabiam da besteira que tinha feito. Mas não tinha tempo para sentir vergonha. Tinha que sair o mais rápido possível daquele ônibus. Olhou para o corredor. Cheio. Olhou pelas janelas, árvores para todo lado. Que lugar é esse? Que merda de ônibus é esse? – Ficava se perguntando.


Como se isso fosse de alguma utilidade. Ele precisava sair, mas não fazia ideia de onde estava. Não conhecia o lugar onde estava passando. Parecia a BR, não era o centro nem era perto da zona sul, onde ele morava. Era totalmente desconhecido.


– Ei, moço, o senhor pode me informar que linha é essa? Acho que peguei o ônibus errado – Perguntou ao passageiro que estava sentado ao seu lado.


– É o 1334. Agora me deixa dormir que tive um dia terrível, pivete – respondeu o homem com pouca atenção.


Pronto, agora ele sabia que era o 1334 , mas que diabo é 1334? Custava falar o bairro? Pensava, mas não falava, ficara com medo e um pouco de vergonha. Levantou-se, resolveu que desceria do ônibus. Mas não poderia ser por agora, a estrada deserta ainda não acabara. Deslocou-se até mais ou menos o meio do ônibus quando perguntou a uma passageira com uma aparência mais serena.


– Boa noite moça, você poderia me dizer pra onde esse ônibus tá indo? Peguei por engano.


– Esse vai pro Morro do Gato, mas é melhor descer na Faixa de Gaza porque essa hora o morro ta escuro e na Faixa tem um pessoal ali do movimento fazendo a segurança– respondeu e alertou, a moça.


Essas palavras foram suficientes para que suas pernas começassem a tremer. Um lugar chamado Faixa de Gaza não passa nenhuma segurança. Pior ainda é saber que existe lugar mais perigoso. Pior ainda outra vez é saber que estava indo parar nesse lugar.


A paisagem começa a mudar, começam a aparecer casas no lugar das árvores. Enfim ele estava de volta na civilização. Eram casas humildes, mas eram casas. Deu alguns empurrões, pisou em alguns pés, encoxou algumas gordinhas sem querer e, finalmente, chegou até a porta, essa era a hora de descer. Mas antes resolveu fazer uma pergunta ao motorista.


– Êa piloto, que lugar é esse aqui, hein parceiro?


– Rapá, aí é a Palestina... Cuidado aê com essa prata, viu... Os meninos tão querendo fazer o dia das crianças, sabe como é né... – respondeu o motorista com um sorriso maldoso nos lábios.


Nem precisava avisar. Só em ouvir “Palestina”, ele sabia que corria perigo. Mas não tinha jeito. Palestina, Faixa de Gaza ou Morro do Gato, ele uma hora teria que descer do ônibus. Então desceu ali na Palestina mesmo. Com uma rapidez que nunca tivera tirou o mp3, corrente e brinco. Foi colocando cada um em uma parte. O mp3 como era maior ficou preso na cueca, não dentro, preso mesmo. Os brincos, colocou em um dos bolsos, eram pequenos, não faziam volume. A corrente ele deu um jeito e colocou na meia. Merda. O Tênis. Não dá pra esconder o tênis. Por sorte era um Nike preto, não chamaria a atenção pela cor, porém aquela “vírgula” do lado é bem generosa e atrai ladrão.


Saiu andando procurando um ponto. Algumas pessoas passavam voltando para casa. Perguntou onde teria um ponto. Perguntou se tinha algum ônibus direto para zona sul. Enfim, o que pudesse ajudar. Como era esperado não tinha ônibus direto. Porém tinha um ponto na frente do bar.


Antes de ir ao ponto, passou no bar, depois de tanto pânico merecia ao menos uma latinha. Entrou. Pediu. Pagou. Bebeu. Foi até o ponto com todo o medo que alguém pode sentir. Não tinha ônibus direto, mas ele tinha um plano B. Um plano bem simples, pegar Lapa. Em qualquer lugar passa Lapa. Por sorte não demorou a passar, subiu no primeiro que passou. Foi até a Lapa, pegou seu ônibus de volta para casa ciente de que tinha tido um péssimo dia, mas uma grande história.


Ao encontrar um amigo no caminho de casa, logo foi contando-lhe desde o princípio.


– Então parceiro, sabe aqueles dias em que tudo dá certo? Pois é, não foi esse...

2 comentários:

Bruxo disse...

que barril, hein?

uma vez peguei um estação pirajá tão lotado que só deu pra descer na própria estação e já dormi no ônibus pra acordar em são rafael.

Naiara LuaNova disse...

huahuahauhauahuahau
Algo parecido jah aconteceu comigo. Foi um desespero o onibus passava pela BR, era mato / todo lado. fico feliz de não ser a única a pegar ônibus errado nesse mundo.
kkkkk


Vc eh muuuuito engraçado!