quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Entrar é fácil...




Meu ponto tá chegando. O buzu já está subindo a ladeira. Está perto. Ônibus cheio, terei que levantar mais cedo, caso contrário posso passar do ponto. Passar do ponto é perigoso, o caminho é mais longo e mais escuro. Se eu levantar agora, chegarei lá na frente na hora de descer. Mas se o buzu não estiver cheio como aparenta? Daqui do fundo não dá para ter certeza. Sentar no fundo é ruim por isso. Às vezes o buzu não está completamente cheio, mas daqui do fundo parece que está. Se eu levantar e não estiver cheio, ficarei em pé até chegar no ponto. Ficar em pé não é legal.

Eu sempre me arrependo de sentar nas cadeiras do fundo, mas sempre são elas que estão vazias na janela. Sentar do lado da janela é legal, dá pra ver o mar...ahh, mar é o caralho, eu quero é chegar em casa. Sentar no fundo não ajuda em nada, só atrapalha. Bem, quer dizer, nem tudo é ruim. Nas últimas cadeiras não é preciso aguentar mochilas, bolsas, sacolas e qualquer outra merda sendo empurrada em cima de mim quando alguém tenta desbravar o corredor. É, tem seu lado bom. Mas na hora de descer atrapalha, que dilema. A única certeza que eu tenho é que as cadeiras do fundo foram feitas para quem desce no fim de linha. Não posso ficar pensando muito. Tenho que decidir se levanto ou não.

Sinal vermelho no final da ladeira. Essa é minha deixa, levanto agora, com alguns empurrões seguidos de um falso "licença" e alguns pisões, eu consigo descer. Ahh, mas e se não estiver cheio de verdade? Ah, foda-se, se eu pensar demais eu vou morar nessa porra. Às vezes da vontade de descer pela janela, estilo Velocidade Máxima. Mas não é lá das ideias mais inteligentes, estou sentado do lado da pista, se eu pular, conseguirei um atropelo no mínimo. E convenhamos, alguém que desce do ônibus pela janela merece ser atropelado. Por uma carreta, no mínimo. Ehh, estou decidido, vou levantar agora.

Essa é a pior parte. Ajeito a mochila, pego o classificador, faço cara de mau e vou pra guerra. Minha primeira missão é me equilibrar até conseguir, com a mão esquerda, segurar naquelas barrinhas de cima. Não é muito difícil de vencer essa etapa, mesmo com apenas uma das mãos. Em seguida, é pedir licença para aquelas pessoas que congestionam aquele pequeno corredor que liga o meio ao final do ônibus. Essa parte também não é tão difícil, mas é bem inconfortável. Passado das duas primeiras etapas, chego na pior parte, passar por aquela multidão que bloqueia o corredor. Eu me pergunto várias vezes como eles conseguem aquilo, é fisicamente impossível, não cabe tanta gente em um ônibus só. Começo minha investida. Peço licença, piso em alguns pés, peço desculpa. Empurro algumas pessoas (Infelizmente "licença" não abre passagem, dá próxima vez tentarei "abre-te sésamo"), antes pedindo licença e depois desculpa. Um imprevisto..o ônibus tem aquela porta do meio, ou seja, exatamente no meio do buzu a barrinha fica mais alta, mais um trabalho. Chego no meio, empurro, piso no pé, caio em cima e já nem peço mais desculpa, faço tudo isso com cara de mau. Nem tenho mais cara de pau para pedir desculpas nem quero arriscar ser agredido por ninguém. O terror já está chegando ao final, é só mais alguns empurrões e chegar na frente. Lá, geralmente, tem pessoas mais inteligentes, que sentaram na frente, e descerão no mesmo ponto. Agora é relaxar e gozar porque amanhã tem mais, nesse mesmo buzu e nesse mesmo horário, para fazer inveja até a Chaves.