domingo, 22 de setembro de 2013

A lenda

Havia uma antiga lenda chinesa que dizia que, uma vez, um jovem inexperiente entrando na idade adulta foi até o topo de uma montanha falar com um velho sábio. Ao chegar lá em cima, o jovem, que já estava cansado, deparou-se com o velho sábio e perguntou:

- Oh, grande sábio, estou entrando agora na vida adulta e não tenho dinheiro para tirar a xerox de LETA10, tem como você me adiantar uns trocados, na moral?

O sábio desviou o olhar, deu um migué, fingiu que não era com ele e respondeu:

- Porra, piva, tá ruim agora. Tou sem miúdo nenhum na mão. Senão eu te adiantava. Foi mal, parceiro.

Diante de sua derrocada, o jovem saiu em busca de alguns trocados para tirar sua fotocópia.

Algumas semanas depois, o jovem recebeu uma chamada no seu celular sem crédito:

- Ea, meu parceiro, tá fazendo o que agora? Bó comer essa água?

Era o sábio. E o jovem lhe respondeu:

- Porra, man, tou quebrado. O pouco que consegui gastei tudo em xerox. Tou liso liso.
 - Oh, meu jovem Padawan, eu não perguntei se você tinha dinheiro. Não quero seu dinheiro. Eu te chamei para beber. Não se preocupe com dinheiro. É tudo nosso.

E ambos foram beber.

Moral da história: Dinheiro para xerox ninguém empresta, mas, para beber, brota do chão. Se ligue.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Fundo de busu

Ah, hoje, o ônibus não vai lotar, estou sentindo isso. Não tem mais cadeira da janela na frente, mas tem aquelas ali no fundo. Hoje, vou ficar no fundo. O ônibus não vai lotar. Olha esse céu, olha esse tempo. Hoje, tudo conspira a meu favor. O ônibus não vai encher. E daí que já são cinco da tarde? Certeza de que as pessoas ainda não conseguiram chegar aos pontos. Vou sentar no fundo mesmo.

(alguns pontos depois)

Eu sabia que esse ônibus encheria e mesmo assim sentei no fundo. Quem eu queria enganar? Eu mereço, certamente, tudo isso. Mereço. Mereço. Mais de não-sei-quantos-anos andando de ônibus e aprendi o quê? Nada. Só pode. Não aprendi nada. Já sei que esse horário enche, que esse maldito ônibus enche e, só para sentar na janela, vim sentar no fundo. Eu mereço. Mereço. Eu devia, ao chegar em casa, escrever no caderno 100 vezes: "nunca mais sentarei no fundo do ônibus no horário de pico". Talvez assim eu aprenda. Olha para esse ônibus... Olha quanta gente aqui dentro... Como pode caber tanta gente nesse maldito ônibus? O que será que tem lá na frente que faz tanta gente querer entrar aqui? Lá de fora não dá para ver que não cabe mais ninguém aqui dentro? Sério. O que passa na cabeça de quem ainda tenta (e consegue) subir nesse maldito ônibus? E esse motorista, hein? Que se passa na cabeça dele? Tomara que a mulher dele abra tanto as pernas para os vizinhos, quanto ele abre essa maldita porta do fundo... Ele não vê que não cabe mais ninguém aqui?

Bom, não adianta ficar aqui me martirizando. Tenho que arranjar uma forma de sair daqui sem ter que encarar essa galera toda. Faltam uns oito pontos. Com o trânsito, acho que tenho uns 40 minutos para pensar. O que posso fazer? Hum... Já sei... Vou sair pela janela. É, fechou. Parou no ponto, eu desço pela janela e já era. Sou foda... Olhando bem aqui... Esse espaço é muito pequeno... Não dá para passar, não... Melhor pensar em outra coisa... Nossa! Como não pensei nisso antes? Vou fazer isso. Sempre quis fazer isso. Hum, me deixe ver onde tem uma alavanca de saída de emergência... Nossa! Que conveniente, tem uma aqui mesmo nessa janela. É isso que vou fazer. Quando o ônibus chegar a meu ponto, puxo a alavanca e saio pela janela... Ahh, quem eu quero enganar mais uma vez? Eu jamais faria isso. Quem seria o idiota que faria isso? Não sou louco a esse ponto... Melhor pensar em outra coisa... Humm... O que fazer?? Já sei. Vou descer pelo fundo. Isso. Só preciso passar o corredorzinho, pulo a catraca e saio pela porta de trás. Genial. Não terei que encarar essa galera toda. É só falar com o cobrador... Porra, se bem que tem gente demais nessa traseira. É capaz de eu perder meu ponto tentando me desvencilhar desse pessoal. Acho que essa ideia também não é muito interessante. O que posso fazer então? Eu poderia passar por cima das cadeiras. É, tem mais espaço. Era só pisar no ferro que apoia a mão. Tipo o homem-aranha. Acho que dá para fazer... As pessoa estranhariam, podem até reclamar, mas acho que dá... Ehh... Acho que também não vai rolar... Caralho, estou fodido!

Ehh, não tem para onde correr. Vou ter que encarar esse pessoal. Faltam só quatro pontos. No próximo, levanto, empurro metade dessa galera e saio dessa merda... Hoje, espero que eu tenha aprendido a lição. Só deve sentar na merda do fundo do ônibus no horário de pico quem for ladrão e quem morar no fim de linha. Hoje, definitivamente, aprendi isso. Agora é hora de levantar e começar a guerra.

Oh, licença... licença aí, mão. Oh, parceiro, na moral, deixa eu passar aí. Oh, minha tia, licença aí, na moral. É, vou descer no próximo... licença... valeu... licença, jão... vai descer no próximo, parceiro? 

Valeu, piloto!